Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 2ª Edição aconteceeu entre os dias 07 e 28 de novembro de 2020, com uma programação totalmente online por conta da pandemia da Covid-19. As atrações, todas gratuitas, foram transmitidas ao vivo no canal do Youtube do festival, diretamente dos teatros e centros culturais municipais.
O evento foi composto por 08 espetáculos, 01 show, 3 Giras de Conversa, 1 Quilombo Artístico Pedagógico voltado para mulheres indígenas e negras, e 01 performance em homenagem aos 45 anos do Teatro Popular Solano Trindade e aos 20 anos da Invasores da Cia Experimental de Teatro Negro. A realização do Dona Ruth: FTNsp – 2ª edição foi possível graças ao fundamental apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Agradecemos a todas as pessoas trabalhadoras das artes e das culturas, à aqueles que participaram do evento direta e indiretamente, pelo enorme e imensurável empenho para realizar este evento em meio à uma das maiores crises sanitárias e de saúde em contexto mundial. Agradecemos aos espectadores que acompanharam a programação por meio das telas dos seus dispositivos e mandaram toda a sua vibração com muito amor.
A Imagem do Corpo Negro
A pesquisa de linguagens e a experimentação de formas para articular conteúdos em elaborações cênicas é uma das tarefas mais valiosas de artistas do teatro. Experimentar entre as fronteiras das linguagens e técnicas artísticas, e consequentemente subverter os enquadramentos impostos, talvez seja uma das vocações ancestrais de artistas negres. Ao mesmo tempo, no contexto de uma sociedade racista e capitalista em que a urgência pela manifestação da subjetividade e a denúncia por meio da fala são marcas frequentes no teatro concebido por artistas negres, são inúmeras as armadilhas que atravessam os processos criativos, congestionando a potência cênica e os horizontes possíveis para as produções de novos imaginários a partir do teatro. Em paralelo, quando relacionadas aos modos de fazer teatral, as transformações sociopolíticas mobilizadas pelas lutas de raça, gênero, classe e território parecem trazer novos contornos para a produção teatral preta ao colocar em perspectiva a presença do corpo negro enquanto discurso cênico.
Em 2020, essas são algumas das provocações que levam Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo edição online ao encontro entre a imagem do corpo negro na cena e suas possibilidades de anunciação e reinvenção de formas de existir por meio de tecnologias poéticas, estéticas e políticas contemporâneas.
Para realizar uma edição online de um Festival de Teatro Negro que acabou de nascer e busca se consolidar na agenda cultural da cidade de São Paulo, foi necessário criar uma programação que tivesse o compromisso de assumir o risco de encarar esta “coisa online” que ninguém sabe o que é — é teatro? –, seja para elaborar ações cênicas inéditas para esse formato virtual, seja ou para adaptar espetáculos uma vez estreados antes da pandemia. Para tanto, convidamos artistas que em suas feituras no teatro, no cinema, na música, na performance e na pesquisa científica se ocupam em trazer a público mais questionamentos do que definições, na medida em que se permitem — e os é permitido o exercício — da experimentação cênica e do pensamento crítico acerca das movimentações artísticas que possuem autoria e/ou são protagonizadas por pessoas negras. Interessado nas possibilidades de criação e experimentação de formas e linguagens que emergem da relação da imagem do corpo negro com as políticas e poéticas por ele mobilizadas no ato de habitar a sua criação, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro edição online é assumidamente um jogo entre artistas das artes cênicas e do audiovisual com o público-internauta.
Neste ano a multiplicidade de formas, conteúdos, abordagens, espetáculos, experimentos cênicos, performances, “Giras de Conversa” e mais uma edição do intitulado “Quilombo Artístico Pedagógico” compõem a programação do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo edição online.
A convite desta curadoria, quatro artistas apresentam trabalhos inéditos ou em processo de criação especialmente para o Festival. Grace Passô, em parceria com Dione Carlos e Novíssimo Edgar, apresenta a performance “Retrospectiva Preta 2020”; Aysha Nascimento apresenta o espetáculo “Preta Rainha”, do Coletivo Negro e com dramaturgia de Jé Oliveira e direção de Flávio Rodrigues; Naruna Costa apresenta o experimento cênico “Canto ao pé do ouvido”; e Daniel Veiga à frente da direção e da dramaturgia de “A Estrangeira”. Na perspectiva de ampliar as possibilidades de potências multilinguagens da nossa programação, Linn da Quebrada traz o seu show performático “Acusticuzinho”, enquanto Roberta Estrela D’Alva apresenta o seu solo autoral “Slam Blues – Vocigrafias”, e o grupo Teatro Terreiro Encantado participa com o espetáculo “Auto do Negrinho”. Vibrando na energia e na sabedoria que move a infância de crianças pequenas e grandes, a Trupe Liuds, e a Companhia Colhendo Contos e Diásporas Negra colocam em cena, respectivamente, os espetáculos “Mjiba – a boneca guerreira” e “Contando África em Contos”.
Cada uma a sua maneira, todas essas feituras artísticas convocam à memória, jogam com a temporalidade e transitam pelo cruzamento entre linguagens para revisitar, tensionar e ficcionalizar fatos, projeções, imaginários e complexidades da sociedade contemporânea, fazendo de Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo edição online um grande terreiro afrodiaspórico em versão digital.
Em continuidade às ações que visam a saudar, reverenciar e preservar a memória de Ruth de Souza, teremos a “Gira de Conversa – Ruth de Souza: a memória como fundamento do Teatro”, com a participação de Elaine Weinfurter e Jhow Carvalho. Nesta edição, com um formato mais intimista, sempre no encontro entre duas pessoas e tendo como dispositivo de diálogo provocações mútuas sobre os temas propostos, teremos ainda as “Giras de Conversa”: “Tiranias da Subjetividade”, com Leda Maria Martins e Rosane Borges, e “Teatros Negros e a Presença Negra na Cena” com Deise de Brito e Adriana Paixão.
Em sua segunda edição, o “Quilombo Artístico Pedagógico”, processo formativo orientado por artistas negras e direcionado à participação de mulheres indígenas e negras com ou sem experiência em teatro, recebe Zezé Motta, Luh Maza, Ana Musidora e Dione Carlos como orientadoras. Juntas, essas artistas propõem um território de pesquisa e criação partindo de suas áreas de atuação e seus procedimentos técnicos e estéticos, tendo em vista o estudo e a prática dos aspectos cênicos que fundamentam a feitura teatral.
Forjados na memória que nos constituem como continuidade daquelas e daqueles que muito antes de nós lutaram e criaram as condições para sonharmos e realizarmos um Festival de Teatro Negro, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo edição online, homenageia com o devido respeito os 45 anos de existência do Teatro Popular Solano Trindade e os 20 anos de existência da Invasores Cia Experimental de Teatro Negro. A celebração dessas trajetórias será marcada pela apresentação do trabalho “Vivências, Ancestralidades que se cruzam em corpos negros: Narrativas, En-canto e verso”, concebido e encenado pelas artistas Dirce Thomaz e Elis Trindade especialmente para a edição online do Festival. Nessa homenagem, veremos o encontro artístico entre dois dos grupos pioneiros na articulação e mobilização política e popular negra nas artes — e para além delas –, e na proposição de possibilidades artísticas e organização de estratégias para a cena, que ultrapassam rompem a quarta parede.
Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Direção artística e Curadoria
Coordenação, Direção Artística e Curadoria Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Produção Executiva Lucas Ferrazza
Assistência de Produção Fábio Lopes e Juliana Santos
Assessoria de Imprensa Kelly Santos – Mídia Pente Fino
Identidade Visual e Projeto Gráfico Silvana Martins
Marketing Digital Vini Monteiro
Produção Audiovisual e Transmissão Ao Vivo Coletivo Sobre.Olhar
Intérpretes de Libras Erika Mota, Gabrielli Martins e Greicy Santos
Assessoria Jurídica Bruna Cândido
Assessoria Contábil JHP Contabilidade
Apoio: Casa Lúdica, Coletivo Sobre.Olhar, Cozinha Fermenta, Cultne e Mídia Pente Fino.
Realização Aquariane Produções Artístico Culturais e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo
Agradecimentos
A Ruth de Souza, por sua vida e obra, por nos abrir caminhos e por acreditar e confiar em nosso trabalho nos dando licença e permissão para prestar esta homenagem.
A Luzia Gondim, pelo afeto, cuidado, paciência na mediação do nosso encontro com dona Ruth e pela amizade que seguimos nutrindo.
A Tásia d’Paula, pela sua generosidade e confiança para fazer esta edição online ser possível.
À Secretaria Municipal de Cultura pelo compromisso assumido este ano em fomentar a continuidade deste evento na cidade de São Paulo.
Aos nossos apoiadores por fortalecerem e ampliarem as condições para a realização desta edição: Casa Lúdica, Coletivo Sobre.Olhar, Cozinha Fermenta, Cultne, e Mídia Pente Fino.
A equipe de profissionais que generosamente compartilharam seu saber e aplicaram o seu trabalho na construção desta edição: Bruna Cândido, Fábio Lopes, Greicy Santos, José Haroldo Pires, Jere Nunes, Juliana Santos, Kelly Santos, Lucas Ferrazza, Silvana Martins, Thais Arruda e Vini Monteiro.
Todas/es/os artistas presentes na programação.
A Você, público que nos acompanha de perto ou de longe, direta ou indiretamente.