O Dona Ruth: Festival de Teatro de São Paulo – 3ª edição tem como perspectiva mobilizar as possibilidades de encontro entre o centenário de Ruth de Souza e as cosmovisões, histórias, políticas e poéticas indígenas e negras, entendendo que nesta encruzilhada há muito sobre sonho, encanto, continuidade e permanência. Assim, com o exercício crítico e ético de evidenciar tecnologias e modos não hegemônicos de pensar e criar cotidianamente o mundo, o Festival assume um compromisso político de encantar a vida em tempos de desencanto.
Com cerca de 30 atrações gratuitas (online e presencial), a programação que ocorre de 20 a 31 de outubro é composta por homenagens aos 100 anos de Ruth de Souza, Show, Encontro de Sabenças e Atos Artísticos – criações cênicas para o online e para o presencial que transitam entre as linguagens do teatro, da performance, da dança e das artes visuais com autoria de artistas indígenas e negros de diferentes regiões do Brasil. Após cada apresentação, serão realizadas as Giras de Conversa, como um convite a percorrer, com artistas, críticos, pesquisadores e público em geral, os caminhos visíveis e invisíveis evocados pelos Atos Artísticos compartilhados. A programação segue ainda com os Quilombos Artísticos-Pedagógicos, um conjunto de atividades formativas voltadas para pessoas interessadas em troca de saberes sobre as infâncias, a crítica teatral, as poéticas da oralidade e os processos de invenções biográficas.
Com o fundamental apoio institucional do Itaú Cultural, Sesc São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Oficina Cultural Oswald de Andrade e Museu Afro Brasil, nós temos a honra de receber nos palcos do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Pauo – 3ª edição: Anelis Assumpção, Bruno Cavalcanti, Cia Casa Circo, Cibele Mateus, Clodd Dias, Cyda Baú, Daniel Munduruku, Dyroá Bayá, Elisa Lucinda, Emerson Pontes, Joice Teixeira, José Ricardo, Juão Nyn, Julie Dorrico, Júlio Cláudio da Silva, Kay Sara, Luciano Mendes, Luz Ribeiro, Naine Terena, N’Kinpa, Rita Rosa Lende, Sandra Almada, Sandra Nanayna, Soraya Martins, Tatiana Henrique, Ziel Karapotó, Zora Santos e todas/es/os as/es/os demais artistas que compõem as fichas técnicas de cada obra presente na programação.
Desejamos a todas/es/os uma ótima 3ª edição do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo!
Entre a menina negra que queria ser atriz e a mulher negra que se tornou uma das artistas de maior relevância para o cenário cultural das artes cênicas brasileiras, Ruth de Souza (1921-2019) é a expressão de um sonho que se move no tempo. Não é, portanto, surpreendente que, no ano em que celebramos o centenário da atriz, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo evoque o sonho como fundamento para assentar as feituras artísticas e pedagógicas que compõem a sua 3ª edição.
Com mais de 70 anos de carreira, Ruth de Souza construiu uma trajetória brilhante e exemplar sustentada por sua excelência técnica que lhe rendeu grandes interpretações e marcos históricos para as artes brasileiras. A consciência de ser uma mulher negra, vivendo em um período no qual as violências raciais e de gênero eram tão ou mais agudas do que as que vivemos hoje, não a impediu de sonhar-se como atriz. Além de sonhar tal ofício, foi justamente como atriz que ela tencionou as estruturas racistas que determinavam o lugar de artistas negres no Teatro, no Cinema e na Televisão. Para tanto, fez parte de uma rede de atrizes negras e atores negros que contava com nomes como Léa Garcia, Chica Xavier (1936-2020), Antônio Pitanga, Zózimo Bulbul (1937-2013), Zezé Motta e o próprio Teatro Experimental do Negro (TEN) liderado por Abdias do Nascimento (1914-2011), entre muitos outros e outras que entenderam que as suas imagens nos palcos e nas telas eram capazes de contribuir significativamente para a dignidade da população negra no Brasil. Um dos diversos efeitos disso, sabemos, são as inúmeras gerações de artistas negres que são sua continuidade e persistem em disputar o território das artes, marcando-o com suas presenças, políticas, poéticas e pedagogias.
Em um país racista, machista e misógino como o Brasil, para nós, tem sido um processo de grande aprendizagem revisitar os passos de Ruth de Souza e reconhecer neles as estratégias que ela construiu para, em seu próprio tempo e muito além dele, existir, continuar e permanecer. Olhando para a mulher e a atriz, encontramos-nos com a menina que fez do ato de sonhar uma política de invenção e criação de outros mundos possíveis. É justamente essa dimensão política da criança que sonha que nós evocamos nesta edição com o ato de celebração do Centenário de Ruth de Souza.
Indo mais longe, compreendemos o sonho como ciência originária e ancestral, produtora de afetos e mobilizadora de afetações entre seres e mundos. Esta ciência é fundamento das cosmologias, cosmovisões, histórias, políticas e poéticas dos corpos indígenas e negros, que, entre séculos de lutas, encontram também no sonho os caminhos para encantar, existir, continuar e permanecer.
Imaginando ser possível construir espaços de encontro entre o centenário de Ruth de Souza e as lutas e as sabenças negras e indígenas, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 3ª edição instaura uma encruzilhada afetiva, política, artística e geográfica, na qual público, artistas, educadoras/es, críticas/os e pesquisadoras/es indígenas/es e negras/es/os, de todas as macrorregiões do país, se encontram em uma programação nacional, gratuita, online e presencial.
Formada por Atos Artísticos, Quilombos Artístico-Pedagógicos, Giras de Conversa e Encontro de Sabenças, a programação inaugura a dimensão nacional do Festival, seguindo um exercício ético de superar a lógica que insiste em localizar a cidade de São Paulo como o único e/ou o principal ponto de referência de onde se propõem, observam, leem, sistematizam, compreendem e legitimam propostas artísticas, técnicas de criação, perspectivas conceituais e metodologias pedagógicas. Reconhecendo a imensidão dos Brasis, desde esta ruptura territorial até os universos aqui evocados, a presente edição do Dona Ruth: FTNSP, além de mobilizar o enfrentamento dos marcadores coloniais e hegemônicos – que historicamente controlam e aprisionam os campos das artes, da cultura e da educação -, sugere o tensionamento da dita história oficial das artes cênicas perpetuada por instituições de ensino para conferir às artes indígenas e negras o lugar de principais fontes de referência de formação da cultura brasileira.
Para isso, artistas, grupos, coletivos, educadores e pesquisadoras/es que atuam a partir da experiência do corpo em festa e em guerra ocupam os palcos do Dona Ruth:FTNSP coexistindo na multiplicidade de experiências, modos de pensar, criar e produzir. Em suas elaborações poéticas, críticas e pedagógicas, expressam uma heterogeneidade de estéticas que apontam uma ética própria e tensionam as estruturas de poder dominantes, estabelecendo territórios de disputa histórica, social e econômica que realocam no tempo os saberes historicamente subalternizados e sempre alvos de extermínio – ainda mais intensificados diante das já incontáveis perversidades do atual desgoverno federal e pelos seus cúmplices capitalistas.
Movida por encontros, diálogos, encantos, tensionamentos, inconformismos, rebeldias e transgressões, no cruzo entre o centenário de Ruth de Souza e as cosmologias e cosmovisões indígenas e negras, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 3ª edição/2021 evoca forças motrizes para provocações políticas, éticas, poéticas e pedagógicas dialógicas com as urgências do nosso tempo. Tudo isso porque sonhamos que esses universos podem sugerir e apontar caminhos para a reinvenção da vida e do mundo, propondo outras rotas, outras técnicas, outras linguagens e outros marcos civilizatórios. Semeando, no corpo, nas memórias e nas subjetividades das pessoas negras e indígenas, farturas e abundâncias de desejos e possibilidades de vida e futuro para toda a população brasileira.
Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Direção e Curadoria
Idealização, Direção Geral e Curadoria Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Coordenação de Produção Ellen de Paula
Coordenação de Comunicação Gabriel Cândido
Produção Executiva Lucas Ferrazza
Assistência de Produção Fábio Lopes e Thamy Kauanda
Assessoria de Imprensa Kelly Santos – Mídia Pente Fino
Identidade Visual e Projeto Gráfico Silvana Martins
Produção de Redes Sociais Vini Monteiro
Projeto Audiovisual Jerê Nunes e Thais Arruda – Coletivo Sobre.Olhar
Concepção do site Seiva Digital
Realização Aquariane Produções Artístico Culturais
Apoio Institucional Itaú Cultural, Sesc SP, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Oficina Cultural Oswald Andade e Museu Afro Brasil
Parceria Coletivo Sobre. Olhar, Cozinha Fermenta e Mídia Pente Fino
Agradecemos Ruth de Souza hoje e sempre por sua vida e obra, por nos abrir caminhos e por acreditar e confiar em nosso trabalho nos dando licença e permissão para prestar esta homenagem.
A Luzia Gondim, pelo afeto, cuidado, paciência na mediação do nosso encontro com dona Ruth e pela amizade que seguimos nutrindo.
Ao Itaú Cultural, Sesc SP, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Oficina Cultural Oswald de Andrade e Museu Afro Brasil pelo fundamental compromisso assumido de fomentar a continuidade e permanência deste evento na cidade de São Paulo. A todas as trabalhadoras e trabalhadores de cada instituição apoiadora que atuaram na 3ª edição do Dona Ruth:FTNsp.
Aos nossos parceiros por fortalecerem e ampliarem as condições para a realização do Festival: Coletivo Sobre.Olhar, Cozinha Fermenta e Mídia Pente Fino.
A toda a nossa equipe de profissionais que generosamente compartilharam seu saber e aplicaram o seu trabalho na construção desta edição.
A todas/es/os artistas presentes na programação.
Ao público que nos acompanha de perto ou de longe e assim contribui direta ou indiretamente para a continuidade de existência do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo.