2ª Edição | 2020

Pretinho Mais que Básico entrevistou Gabriel Cândido e Ellen de Paula para falar sobre a Segunda Edição de Dona Ruth Festival de Teatro Negro da cidade de São Paulo.

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Pensamento Curatorial: A imagem do corpo negro na cena

A pesquisa de linguagens e a experimentação de formas para articular conteúdos em elaborações cênicas é uma das tarefas mais valiosas de artistas do teatro. Experimentar entre as fronteiras das linguagens e técnicas artísticas, e consequentemente subverter os enquadramentos impostos, talvez seja uma das vocações ancestrais de artistas negres. Ao mesmo tempo, no contexto de uma sociedade racista e capitalista em que a urgência pela manifestação da subjetividade e a denúncia por meio da fala são marcas frequentes no teatro concebido por artistas negres, são inúmeras as armadilhas que atravessam os processos criativos, congestionando a potência cênica e os horizontes possíveis para as produções de novos imaginários a partir do teatro. Em paralelo, quando relacionadas aos modos de fazer teatral, as transformações sociopolíticas mobilizadas pelas lutas de raça, gênero, classe e território parecem trazer novos contornos para a produção teatral preta ao colocar em perspectiva a presença do corpo negro enquanto discurso cênico.

Em 2020, essas são algumas das provocações que levam Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online ao encontro entre a imagem do corpo negro na cena e suas possibilidades de anunciação e reinvenção de formas de existir por meio de tecnologias poéticas, estéticas e políticas contemporâneas.

Para realizar uma edição online de um Festival de Teatro Negro que acabou de nascer e busca se consolidar na agenda cultural da cidade de São Paulo, foi necessário criar uma programação que tivesse o compromisso de assumir o risco de encarar esta “coisa online” que ninguém sabe o que é – é teatro? –, seja para elaborar ações cênicas inéditas para esse formato virtual, seja para adaptar espetáculos uma vez estreados antes da pandemia. Para tanto, convidamos artistas que em suas feituras no teatro, no cinema, na música, na performance e na pesquisa científica se ocupam em trazer a público mais questionamentos do que definições, na medida em que se permitem – e os é permitido – o exercício A Imagem do Corpo Negro da experimentação cênica e do pensamento crítico acerca das movimentações artísticas que possuem autoria e/ou são protagonizadas por pessoas negras. Interessado nas possibilidades de criação e experimentação de formas e linguagens que emergem da relação da imagem do corpo negro com as políticas e poéticas por ele mobilizadas no ato de habitar a sua criação, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online é assumidamente um jogo entre artistas das artes cênicas e do audiovisual com o público-internauta.

Neste ano a multiplicidade de formas, conteúdos, abordagens, espetáculos, experimentos cênicos, performances, “Giras de Conversa” e mais uma edição do intitulado “Quilombo Artístico Pedagógico” compõem a programação do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online.

A convite desta curadoria, quatro artistas apresentam trabalhos inéditos ou em processo de criação especialmente para o Festival. Grace Passô, em parceria com Dione Carlos e Novíssimo Edgar, apresenta a performance “Retrospectiva Preta 2020”; Aysha Nascimento apresenta o espetáculo “Preta Rainha”, do Coletivo Negro e com dramaturgia de Jé Oliveira e direção de Flávio Rodrigues; Naruna Costa apresenta o experimento cênico “Canto ao pé do ouvido”; e Daniel Veiga à frente da direção e da dramaturgia de “A Estrangeira”. Na perspectiva de ampliar as possibilidades de potências multilinguagens da nossa programação, Linn da Quebrada traz o seu show performático “Acusticuzinho”, enquanto Roberta Estrela D’Alva apresenta o seu solo autoral “Slam Blues – Vocigrafias”, e o grupo Teatro Terreiro Encantado participa com o espetáculo “Auto do Negrinho”. Vibrando na energia e na sabedoria que move a infância de crianças pequenas e grandes, a Trupe Liuds, e a Companhia Colhendo Contos e Diásporas Negra colocam em cena, respectivamente, os espetáculos “Mjiba – a boneca guerreira” e “Contando África em Contos”.

Cada uma a sua maneira, todas essas feituras artísticas convocam à memória, jogam com a temporalidade e transitam pelo cruzamento entre linguagens para revisitar, tensionar e ficcionalizar fatos, projeções, imaginários e complexidades da sociedade contemporânea, fazendo do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo edição online um grande terreiro afrodiaspórico em versão digital.

Em continuidade às ações que visam a saudar, reverenciar e preservar a memória de Ruth de Souza, teremos a “Gira de Conversa – Ruth de Souza: a memória como fundamento do Teatro”, com a participação de Elaine Weinfurter e Jhow Carvalho. Nesta edição, com um formato mais intimista, sempre no encontro entre duas pessoas e tendo como dispositivo de diálogo provocações mútuas sobre os temas propostos, teremos ainda as “Giras de Conversa”: “Tiranias da Subjetividade”, com Leda Maria Martins e Rosane Borges, e “Teatros Negros e a Presença Negra na Cena” com Deise de Brito e Adriana Paixão.

Em sua segunda edição, o “Quilombo Artístico Pedagógico”, processo formativo orientado por artistas negras e direcionado à participação de mulheres indígenas e negras com ou sem experiência em teatro, recebe Zezé Motta, Luh Maza, Ana Musidora e Dione Carlos como orientadoras. Juntas, essas artistas propõem um território de pesquisa e criação partindo de suas áreas de atuação e seus procedimentos técnicos e estéticos, tendo em vista o estudo e a prática dos aspectos cênicos que fundamentam a feitura teatral.

Forjados na memória que nos constituem como continuidade daquelas e daqueles que muito antes de nós lutaram e criaram as condições para sonharmos e realizarmos um Festival, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online, homenageia com o devido respeito os 45 anos de existência do Teatro Popular Solano Trindade e os 20 anos de existência da Invasores Cia Experimental de Teatro Negro. A celebração dessas trajetórias será marcada pela apresentação do trabalho “Vivências, Ancestralidades que se cruzam em corpos negros: Narrativas, En-canto e verso”, concebido e encenado pelas artistas Dirce Thomaz e Elis Trindade especialmente para a edição online do Festival. Nessa homenagem, veremos o encontro artístico entre dois dos grupos pioneiros na articulação e mobilização política e popular negra nas artes — e para além delas –, e na proposição de possibilidades artísticas e organização de estratégias para a cena, que ultrapassam rompem a quarta parede.

ELLEN DE PAULA E GABRIEL CÂNDIDO
Curadoria

Memória como Fundamento

(…) Vigário Geral
Lucas, Cordovil,
Braz de Pina
Penha Circular
Estação da Penha,
Olaria, Ramos,
Bom Sucesso,
Carlos Chagas
Triagem, Mauá,
Trem Sujo da Leopoldina,
Correndo correndo
Parece dizer:
Tem gente com fome,
Tem gente com fome,
Tem gente com fome… (…)

Tem gente com fome Solano Trindade (1908-1974)

Era década de 1940, quando o multiartista Solano Trindade deu vida a estes versos que contavam os Brasis daqueles tempos e de muitos tempos antes daqueles. O ano é 2020 e os versos do poeta, folclorista, teatrólogo, ator e artista plástico evidenciam que ainda nos Brasis de agora “Tem gente com fome”.

As diversas pandemias sociais, que há tempos instauram estados de isolamento e distanciamento entre corpos marginalizados, seguem marcando de fome e mortes a nossa gente indígena, preta, pobre e periférica. A diferença hoje é que, em um ano reconhecido como da dita maior crise sanitária mundial do século 21, a nossa gente precisa se reinventar frente ao corpo de um novo vírus, que nem é tão novo assim. Vírus esse que não é, sozinho, o grande criminoso.

Já escutou o “Canto dos Palmares”? Nele Solano nos lembra que o opressor não dorme, mas que sonha com o escravagismo. E em seu sadismo, o opressor marcha mais forte convocando novas forças e preparando constantemente novas investidas em confabulação com os ricos e senhores.

Novas lutas. Ah! Essa atemporalidade da poesia.

Em nome dos que têm fome e em memória dos marcados de mortes pelas pandemias do sistema, o poeta popular, de mãos fechadas e erguidas, fez de sua vida um canto contra todas as tiranias. Esse canto ecoou alto na poesia e na pintura. Mas, talvez tenha sido naquele que é desde o início o terreiro do povo que o poeta fez seu canto ecoar mais longe: o Teatro.

Não qualquer teatro. O Teatro Popular Brasileiro por ele fundado em 1950, no Rio de Janeiro, ao lado da coreógrafa e terapeuta ocupacional Maria Margarida da Trindade e o sociólogo e historiador Edson Carneiro. Não qualquer teatro. O teatro que tem sua continuidade naquela que é uma das mais bonitas e poderosas invenções concebidas no século 20: o Teatro Popular Solano Trindade, fundado pela artista plástica, coreógrafa e folclorista Raquel Trindade, na cidade de Embu das Artes em 1975.

Assentada no fundamento de família e memória, Raquel Trindade, a rainha Kambinda, estabeleceu o projeto políticopoético-pedagógico chamado Teatro Popular Solano Trindade como exaltação da vida, da arte e das lutas políticas de Solano, seu pai. Instaurou-se, assim, um quilombo que mantém viva e em projeção as ciências e tecnologias afrobrasileiras e populares dos Brasis. O Teatro Popular Solano Trindade baseia suas práticas em feituras artísticas marcadas pelo cruzamento entre linguagens (artes plásticas, dança, literatura, teatro), considerando a máxima já proposta pelo poeta negro: pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo na forma de arte. Concebe-se aí, como força motriz desse Teatro, o comprometimento político, artístico e estético com a construção de identidades afro-brasileiras, devolvendo ao povo, justamente em forma de arte, novos imaginários reelaborados a partir da transformação das imagens socialmente construídas sobre a pessoa negra e o povo preto.

E se contamos aqui sobre esse Teatro artisticamente engajado e comprometido com a construção de novos imaginários, com as lutas negras e sociais, não poderíamos deixar de ir ao encontro da Invasores Companhia Experimental de Teatro Negro. Fundada no ano 2000, sob a liderança da diretora e atriz Dirce Thomaz, a Cia resiste e persiste frente às engrenagens racistas presentes no teatro paulistano, com criações cênicas contínuas e transversais. Por meio de sua poética, faz do teatro um lugar acessível para a partilha de experiências e conhecimentos sobre o povo negro e de personalidades negras fundamentais para a cultura brasileira, como é o caso do seu trabalho mais conhecido: “Eu e Ela: Visita a Carolina Maria de Jesus” (2017).

Estamos diante de dois dos mais importantes grupos dos Teatros Negros dos Brasis, que entre muitos caminhos se encontram em um lugar de projeto artístico, e por isso mesmo político, concebido por artistas mulheres negras. Mulheres que teimam e insistem em pensar, propor e criar outros formatos de mundo em que a vida na sua inteireza possa ser celebrada por todas as existências com dignidade.

O ano é 2020 e, contra todas as tiranias e pandemias sistêmicas que ferem nossos corpos de fome e mortes, nós reverenciamos e celebramos os 45 anos do Teatro Popular Solano Trindade e os 20 anos da Invasores Companhia Experimental de Teatro Negro.

ELLEN DE PAULA E GABRIEL CÂNDIDO
Idealização, Direção Artística e Coordenação de Produção

Programação 2ª Edição

Confira como foi a 2ª edição do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo

Semana 1 | Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online

Semana 2 | Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online

Semana 3 | Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online

Semana 4 | Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – Edição Online