100 ANOS DE RUTH DE SOUZA:

UM SONHO QUE SE MOVE NO TEMPO

Mesmo que tenha falecido em 2019, Ruth de Souza segue viva entre nós através do legado da sua obra inscrita na história do país. Marcada por sua qualidade técnica em cena e pelo seu pioneirismo na luta pela dignidade da população negra por meio das artes, a emblemática atriz coleciona atuações e personagens inesquecíveis que lhe renderam reconhecimento nacional e internacional. Foi a primeira atriz negra a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com o espetáculo “O Imperador Jones” (1945), realizado pelo grupo Teatro Experimental do Negro (TEN). Por sua atuação no filme “Sinhá Moça” (1953), tornou-se a primeira brasileira indicada como melhor atriz em uma premiação internacional, no Festival de Veneza de 1954. É a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela, em “A Cabana do Pai Thomás” (1969). Desta forma, em mais de 70 anos de carreira, a “Dama Negra da Dramaturgia” se tornou uma artista exemplar, passando a ser considerada responsável pela abertura de caminhos para atrizes e atores negros até os dias atuais. 

Para celebrar este marco histórico para a artes e cultura do Brasil, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo realizou em maio de 2021 o especial 100 de Ruth de Souza: um sonho que se move no tempo, um conjunto de atividades em comemoração ao centenário da atriz. Confira a programação abaixo.

Ficha técnica:
Direção Geral e Coordenação de Produção: Ellen de Paulo e Gabriel Cândido
Projeto audiovisual: Coletivo Sobre.Olhar
Identidade visual: Silvana Martins
Assessoria de imprensa: Mídia Pente Fino – Kelly Santos
Produção de redes sociais: Vini Monteiro
Convidados especiais: Aysha Nascimento e Júlio Claudio da Silva
Poesia: Luz Ribeiro

Projeções a laser: Diogo Terra

Desenhos da intervenção visual: Fábio Lopes e Silvana Martins
Mediação da intervenção visual: Deni Marquez e Maria Gabi
Foto de Ruth de Souza: Edmilson Saldanha
Apoio: Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo
Realização: Aquariane Produções Artístico Culturais
Agradecimento especial:
Okupação Coragem (Cohab Itaquera), Espaço Cultural Cachoeiras (Cohab Raposo Tavares), Santo Elias Água, Juliana Castelano Vaz, Felipe Valentim e Manuela Alves.

Programação

Gira de Conversa

Viva, Ruth de Souza!

Abrindo a programação do “100 anos de Ruth de Souza: um sonho que se move no tempo”, Aysha Nascimento conversa com Ellen de Paula e Gabriel Cândido sobre as atividades de celebração do centenário da Ruth de Souza, as relações da Dama Negra da Dramaturgia com a construção do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo, e do legado deixado pela atriz para as futuras gerações de artistas negros no Brasil.
Com Aysha Nascimento, Ellen de Paula e Gabriel Cândido.
Esta atividade ocorreu no dia 5 de maio de 2021.

Intervenção Visual

100 anos de Ruth de Souza

Tendo como tema a vida e a obra da Ruth de Souza, foram realizadas em muros da cidade projeções a laser da imagem da atriz, bem como trechos de sua biografia e frases marcantes ditas ao longo de sua carreira. Esta ação teve o intuito de criar uma itinerância de projeções pelas regiões norte, sul, leste, oeste e central de São Paulo. As intervenções ocorreram do dia 12 ao dia 24 de maio de 2021. Com Aysha Nascimento e Júlio Claúdio da Silva. Esta atividade ocorreu no dia 19 de maio de 2021.

Território Casa de Cultura M’Boi Mirim – Piraporinha/Zona Sul
Território Casa de Cultura do Butantã – Cohab Raposo Tavares/Zona Oeste
Território Casarão Vila Guilherme – Vila Guilherme/Zona Norte
Território República – Campos Elíseos/Centro
Território Casa de Cultura Raul Seixas – Itaquera/Zona Leste.

100 cartas para Ruth de Souza

Nesta ação, Ellen de Paula e Gabriel Cândido iniciam a elaboração de cartas para a dona Ruth com a intenção de tecer diálogos poéticos e simbólicos com a atriz. Além da dupla, serão convidadas diversas pessoas de diferentes áreas de atuação para compor estas escritas e narrações até completar o número de 100 cartas.

Confira o texto e o áudio da carta de Nº 1 escrita por Ellen de Paula e Gabriel Cândido.

Ouça a carta na voz de Ellen de Paula

São Paulo, 12 de maio de 2021

Querida Ruth de Souza, dona Ruth

Já se passaram praticamente dois anos desde o nosso primeiro e último encontro em sua casa. Os dois “jovens de São Paulo”, como a senhora mesma nos chamou na ocasião, saíram completamente diferentes da forma como entraram na sua residência. Era um sábado, dia 25 de maio de 2019, mais especificamente. Nos recordamos de um dia ensolarado, quente e agitado, como é típico do Rio de Janeiro. Nosso encontro estava marcado para às 14h, lembra? Pois tratamos de chegar antes, acho que o relógio não marcava nem 13h. Primeiro localizamos o seu prédio, depois procuramos algum lugar próximo para almoçar e baixar a ansiedade do encontro. O tempo voou, dona Ruth, impressionante. Às 14h em ponto tocamos o interfone e a Lu Gondim veio nos receber. A Lu que, inclusive, desde o início nos tratou com tanto carinho e atenção que foi inevitável não criarmos uma relação de amizade com ela dali em diante, tanto é que até hoje nos falamos e a senhora continua sendo um dos nossos assuntos preferidos. Temos muitas saudades daquele dia, dona Ruth. Bom, aí fomos entrando no prédio e o tempo começou a ficar diferente, as frequências cardíacas foram alterando, as bocas secando, e o ar entrando de forma irregular em nossos corpos. A porta finalmente abre e vemos a senhora ali, linda, sentadinha no sofá, vestida com o – para nós – inesquecível suéter preto de estampas florais em azul, rosa e verde. Pedimos licença para entrar (licença para a senhora, para a Lu, para toda a nossa ancestralidade e entidades que nos guiam e protegem). Podem entrar – disse a Lu. A senhora nos cumprimentou e nos convidou a sentar em cadeiras que estavam dispostas de frente para o sofá em que estava sentada. Sentamos. A senhora nos olhava com um olhar tão profundo que era como se enxergasse as nossas almas e lesse o nosso pensamento. O que foi aquilo, dona Ruth? Lu nos ofereceu água e de pronto aceitamos, lógico. Internamente cada um de nós, durante toda a tarde, seguiu agradecendo por estar tendo tamanha oportunidade. Sem rodeios, a senhora logo lançou: o que vocês querem de mim? Naquele momento rimos de nervoso, tentamos dizer uma coisa ou outra sem nenhum sucesso e ficou evidente que não tínhamos preparado roteiro algum. O que nós queremos da senhora, dona Ruth? Quem somos nós para querer algo da senhora? Dali em diante sabemos bem os mistérios que conduziram a nossa conversa. A nossa Gira de Conversa e de Afetos segue aberta até hoje. E a conversa rendeu tanto que já começava a escurecer e nós, em constrangimento por poder estar incomodando, íamos tentando encaminhar os diversos assuntos abertos, mas fracassamos. Quando estávamos quase nos levantando das cadeiras, a senhora nos ofereceu um pudim e de quebra fez uma enorme propaganda do seu sabor. Como recusar? Impossível. Isso porque nem vamos citar aqui para a senhora que um de nós sequer gosta de comer pudim, mas que naquela hora comeu com muito gosto, viu?! Na hora de irmos embora, um até logo. De fato, muitos assuntos ficaram abertos, muitas mais risadas precisavam ser dadas juntas, muitos mais beijos e abraços para serem trocados. Até hoje ficamos curiosos para saber como o nosso presente ficou na senhora, sabia? Ah, o presente que a senhora nos deu segue guardadíssimo! Quando deixamos o seu prédio, a sensação era como se estivéssemos atravessando um portal de volta ao planeta terra (para o nosso azar). Depois fomos ao mesmo lugar em que havíamos almoçado, mas dessa vez para digerir o nosso encontro, narrar um para o outro o que acabara de acontecer como se quiséssemos nos convencer de que tudo aquilo foi real. Assim ficamos mais algumas horas em seu bairro antes de partir de vez. Esperamos que a senhora tenha tido uma ótima noite. Esse foi um dos dias mais importantes das nossas vidas, dona Ruth. É sempre emocionante relembrar e contar para as pessoas sobre esse dia. Obrigado mais uma vez por nos convidar e receber em sua casa.

Como a senhora sabe, naquele mesmo ano realizamos a primeira edição do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo. A sua permissão para que nós a homenageássemos de forma permanente, e o seu próprio interesse pelo Festival como um todo foi fundamental para seguirmos em frente. Estávamos preparando aquilo que nós três havíamos combinado: organizar uma estrutura para que a senhora participasse do festival mesmo à distância e registrar todo o evento em fotos e vídeos para que pudesse acompanhar por meio do seu tablet. A exposição que tanto queríamos fazer, inclusive com os materiais que a senhora nos ofereceu, ainda não saiu, mas estamos trabalhando para que isso aconteça logo. Foi uma luta imensa, dona Ruth, para tirar o Festival do papel e fazermos acontecer em condições dignas, coisa que a senhora sempre nos ensinou a fazer com as suas práticas políticas e pedagógicas desde os tempos do Teatro Experimental do Negro. Nesse sentido, de lá pra cá, infelizmente pouco mudou para que nós, artistas negros, em termos de conseguir recursos orçamentários para realizar os nossos projetos autorais. É sempre uma luta muito grande para provar que o que fazemos, além de ter qualidade, tem a capacidade de mobilizar interesse público e dialogar com todos os assuntos mais caros para a sociedade brasileira. Para além disso, pensamos que é como se uma estrutura fosse criada para gerar disputas entre nós para os poucos recursos disponibilizados. Uma perversidade. Falamos um pouco sobre isso em nosso encontro, né? Mas enfim, obviamente existem avanços e eles só foram possíveis de serem conquistados graças a senhora e a tantas outras e outros artistas da sua geração. Temos hoje no país uma cena artística negra em efervescência elaborando estéticas, poética e políticas que são, a nosso ver, o que de mais interessante e significativo tem acontecido na arte contemporânea do país. Este é o tamanho do seu legado, percebe? Bem, ainda sobre a primeira edição do Festival, como dissemos, ele aconteceu em outubro e durou até o comecinho de novembro. Tivemos uma parceria muito importante com o Sesc SP, e esta edição aconteceu na unidade do Sesc Interlagos, que fica localizado na região do Grajaú, extremo sul da capital. Era mesmo o nosso desejo que a história desse Festival na cidade tivesse início nos territórios periféricos, porque esse evento é construído por nós, para as nossas e os nossos e, também, porque a cena teatral da cidade acaba se concentrando de forma mais intensa na região central – lugar que sabemos que inevitavelmente iremos estar também. Na programação, muito do que lhe contamos foi possível fazer: uma programação celebrando a história dos teatros negros paulistanos com companhias, grupos, coletivos e artistas pioneiros na cidade em um encontro intergeracional entre os que vieram antes e os mais jovens. Tivemos uma performance linda, intitulada de “Femenagem à Ruth de Souza” dedicada à senhora e criada pelas Capulanas Cia de Negra, Clarianas e Zona Agbara, três grupos compostos por mulheres negras do teatro, dança e música daqui de São Paulo. Sabe quem participou do Festival também? Léa Garcia! Foi um presente conhecer a sua grande amiga, dona Ruth. A dona Léa, assim como a senhora, é maravilhosa e compôs uma das nossas Giras de Conversa dedicada à sua vida e obra junto com a Lu Gondim, a Dani Ornellas, a Maria Ceiça e com o Júlio Cláudio da Silva. Foi emocionante. Acredita que depois demos um rolê com a dona Léa? A levamos para conhecer a Aparelha Luzia, que é um quilombo urbano localizado na região central da cidade. Tivemos uma noite inesquecível e a dona Léa mostrou ter muito mais disposição do que nós para o rolê. Desde então sempre trocamos ideias com ela.

O Festival foi um sucesso, dona Ruth! Se já não tínhamos dúvidas da importância de um evento como esse, a partir daí a certeza só aumentou. Encontramos tanta gente incrível que colou junto e demonstrou tanto apoio e disposição para caminhar conosco, que mal encerramos a primeira edição e começamos a trabalhar para construir a segunda. O sonho desses jovens estava começando a se realizar. Seguimos trabalhando e buscando as parcerias para garantir a estrutura necessária para a segunda edição do Festival. Só que aí, aconteceu que o mundo foi tomado por uma pandemia de um vírus chamado coronavírus. No Brasil, essa nova pandemia (nova porque percebemos que por aqui já existiam muitas outras) se intensifica e nossa gente morre ainda mais, porque os brasileiros resolveram eleger para governar o país um ditador, genocida e negacionista da ciência, da saúde, da educação, da cultura, da ética e tantos outros valores que deveriam ser inegociáveis. E nessa imensidão de Brasis, muitos outros ditadores e genocidas anteriormente escondidos agora andam tranquilos pelas ruas, falam pelas redes sociais, lançam suas vozes nas rádios e mostram suas caras nos jornais e TV. E tudo isso sem qualquer constrangimento. A senhora sabe bem como é isso, não é? Em meio a muitas disputas políticas, negacionismos e uma série de barbaridades que colocam a vida do povo na mira da fome e da morte, tem gente pedindo a volta da ditadura militar, dona Ruth. Nos constrange tanto ter que te contar isso, porque sabemos que a senhora viveu e sobreviveu, como uma mulher, negra e artista, sob os regimes autoritários no Brasil. Nós sabemos das estratégias que a senhora construiu. Nós sabemos das estratégias construídas pelo Teatro Experimental do Negro. Nós sabemos do exílio, da tortura e da morte que afetou a nossa gente preta que se levantou contra o autoritarismo. Estamos doentes de Brasil, dona Ruth.

Mas nós, que temos a memória como fundamento, lançamos o nosso olhar para as e os que vieram antes de nós, nos apoiamos na nossa ancestralidade e nos levantamos também contra todas as tiranias e pandemias sistêmicas que nos ferem de fome e morte. Foi com esse fundamento que construímos a segunda edição do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo, num formato onlie. Não se assuste, é isso mesmo, uma edição online. Com a pandemia, medidas de isolamento e distanciamento social foram implementadas: nada de aglomerações de pessoas, uso de máscaras, higienização constante das mãos – é bem verdade que isso não tem funcionado muito bem, porque as pessoas não são capazes de cumprir estas regras básicas com vigor e os governos não ajudam, mas ainda assim são medidas necessárias para preservarmos as nossas vidas. A gente teve que inventar outras formas de fazer teatro, sem público cara a cara com os artistas em cena e com elencos reduzidos. Teve de tudo: teatro gravado, teatro sendo transmitido de dentro das casas das pessoas, teatro sendo transmitido ao vivo de espaços culturais e por aí vai. Teve até aquela discussão de “é teatro ou não é teatro?” É uma novidade interessante e desafiadora, porém cansativa ao mesmo tempo. Não sabemos quando voltaremos ao teatro presencial, pois dependemos da vacinação contra esse vírus malditdo para podermos nos reunir com segurança, e por aqui esse processo de imunização está extremamente lento e burocrático. Nada surpreendente se tratando do Brasil. Bom, a gente decidiu se jogar e realizar a segunda edição do Festival mesmo nessas condições, e contamos com o apoio fundamental da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo. Formamos uma equipe incrível e fomos para os teatros, sem público: as artistas realizavam os espetáculos nos palcos dos teatros públicos e nós transmitíamos ao vivo pela internet. Foi  tão bonito e potente, dona Ruth. Não é a mesma coisa de estar no palco com o público presente ali com a gente, corpo a corpo, mas a gente conseguiu estar junto de alguma forma e criar um outro espaço de encontro, sabe? A senhora ia adorar! Com certeza ia acompanhar cada espetáculo pelo seu tablet e comentar no chat as suas impressões sobre eles, interagindo com o público que ficaria enlouquecido com a sua presença. Imagina, a senhora poderia lá da sua casa no Rio de Janeiro participar de uma das Giras  de Conversa sobre a senhora mesmo. Quer dizer, nem faz sentido isso, porque na verdade a senhora poderia estar com a gente da maneira que desejasse. A gente queria tanto isso, dona Ruth. Zezé Motta esteve conosco, compartilhando sobre o ofício de atriz em uma sala virtual lotada de outras mulheres negras. Coisa linda! Sabe quem esteve com a gente, também? A professora Leda Maria Martins. A senhora conhece ela? Ah, com certeza conhece. Ela disse coisas tão lindas sobre a senhora. Leda é tão fundamental e importante pra nós. E a senhora nem sabe: nós fizemos uma homenagem aos 20 anos da Invasores Cia Experimental de Teatro Negro e aos 45 anos do Teatro Popular Solano Trindade. Os dois grupos criaram uma performance juntos para celebrar as suas trajetórias e existências. Nossa! É tão bom, dona Ruth, a gente poder celebrar as nossas histórias. Ainda mais quando não é uma história qualquer, mas a de dois grupos tão importantes para o teatro brasileiro e que são invenções dessas gigantes artistas mulheres negras: Dirce Thomaz e Raquel Trindade.

Dona Ruth, a Dirce é assim igual a senhora: boa de prosa, tem dentro dela tantas memórias da história dos Brasis, dos teatros, das artes, das nossas lutas. Ela falando da senhora é de uma boniteza sem fim. Outro dia mesmo, a gente tava falando pra ela que íamos te escrever essa e muitas outras cartas, e ela nos disse: “a Ruth me contou que adorava receber cartas”. Qualquer dia desses ela vai te escrever também. E dona Raquel? Que lindo que é ler as palavras dela sobre a senhora, contando da amizade que começou quando ela ainda era uma menina, da amizade da senhora com o Seu Solano Trindade, e de como ela e o pai te admiravam pela sua inteligência, pela sua dignidade, pelo seu talento, pelo seu conhecimento sobre o mundo e sobre as artes, pelo seu apreço pelo estudo, pela sua persistência e suas estratégias de luta e por tanto mais que a senhora transbordava de si. Dona Raquel e Dirce Thomaz são a sua continuidade, dona Ruth, assim como nós somos a continuidade de vocês três: mulheres teimosas e persistentes, comprometidas, cada qual a sua forma, em construir outros mundos para a nossa gente. Somos tão gratos por tanto que vocês já fizeram por nós.

Vamos lidando com a saudade da senhora revendo as suas brilhantes atuações em filmes, novelas e te imaginando no palco por meio das suas fotografias em montagens teatrais.  Já estamos em 2021, dona Ruth, o tempo voou mesmo desde o nosso último encontro. A vida por aqui não anda fácil. É verdade que pro nosso povo preto e pobre nada nunca foi fácil. Só que agora, as violências sempre lançadas contra nós foram atualizadas e intensificadas de uma maneira tão absurda que todos os dias a gente se pergunta se deve insistir um pouco mais: insistir em ser artistas, insistir em sonhar com outro mundo possível, insistir em criar condições para que a nossa gente tenha uma vida mais digna e justa. Tem tanta gente com fome, dona Ruth, que parece tão pouco provável que alguma coisa boa possa acontecer, que uma mudança radical possa ser concretizada. Aos poucos, a gente vai perdendo a fé na vida, nas pessoas e até na gente mesmo, sabe? Estamos doentes de tristeza e de desesperança, dona Ruth. Este é nosso sentimento hoje no Brasil.

Mas sabe o que fortalece a gente, nos mantendo conscientes de que a luta é constante e de que precisamos construir estratégias para seguir a caminhada? A senhora, dona Ruth. Sabe o que que mantém vivo em nós a certeza de ser artista e persistir em ser artista? A senhora, dona Ruth. Sabe o que fundamenta em nós o sonho de garantia de futuros para o nosso povo e para todas as pessoas? A senhora, dona Ruth. A senhora nos ensina tanto! Ensina sobre caminhar em bando, sobre ser estratégico, sobre se mover em segredo (e olha que bonito, outro dia aprendemos com os Kariri Xocós que onde não há segredo não há força. E a senhora parece que já sabia disso). A senhora, com seus cem anos de idade e mais de setenta anos de carreira, nos ensina sobre como permanecer. É verdade que a gente ainda bate cabeça, erra, erra e erra. É que permanecer não é fácil. Mas, olha, nós estamos tentando … E quando dizemos nós, nos referimos a um tanto de artistas negras, negres e negros, um tanto de gente preta cujos os nomes nós não sabemos, mas que seguem lutando diariamente, se inspirando no seu talento e de tantas outras e outros da sua gereção. Estamos todes tentando, mantendo vivo dentro de nós, como um sonho nosso, o seu sonho de menina negra que queria ser atriz.

Tem uma frase, dona Ruth, do Laudeni Casemiro, mais conhecido como Beto sem braço, que diz assim: o que espanta miséria é a festa! Neste ano de misérias inumeráveis que nos desencantam, nós invocamos a energia da festa que nos mantém encantados com a vida, para celebrar os seus cem anos. Cem anos de um sonho que se move no tempo.

Hoje, 12 de maio de 2021, é o seu aniversário, e nós queremos gritar pro mundo o seu nome, espalhar pela cidade o seu rosto e fazer saber a quem ainda não sabe quem é Ruth de Souza!

Nós somos a sua continuidade, dona Ruth, e a continuidade de cada pessoa negra que nos antecede no sonho e na luta pelo nosso direito de existir. E nós nos comprometemos, assim como a senhora nos ensinou, a permanecer, marcando nas histórias do mundo as nossas presenças, ciências e poéticas negras.

Muito obrigada por ser essa imensidão de mulher e de artista.

Com um amor inenarrável e uma saudade gigante,

Ellen de Paula e Gabriel Cândido