SEMEANDO FARTURAS E ABUNDÂNCIAS 

Entre a menina negra que queria ser atriz e a mulher negra que se tornou uma das artistas de maior relevância para o cenário cultural das artes cênicas brasileiras, Ruth de Souza (1921-2019) é a expressão de um sonho que se move no tempo. Não é, portanto, surpreendente que, no ano em que celebramos o centenário da atriz, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo evoque o sonho como fundamento para assentar as feituras artísticas e pedagógicas que compõem a sua 3ª edição. 

Com mais de 70 anos de carreira, Ruth de Souza construiu uma trajetória brilhante e exemplar sustentada por sua excelência técnica que lhe rendeu grandes interpretações e marcos históricos para as artes brasileiras. A consciência de ser uma mulher negra, vivendo em um período no qual as violências raciais e de gênero eram tão ou mais agudas do que as que vivemos hoje, não a impediu de sonhar-se como atriz. Além de sonhar tal ofício, foi justamente como atriz que ela tencionou as estruturas racistas que determinavam o lugar de artistas negres no Teatro, no Cinema e na Televisão. Para tanto, fez parte de uma rede de atrizes negras e atores negros que contava com nomes como Léa Garcia, Chica Xavier (1936-2020), Antônio Pitanga, Zózimo Bulbul (1937-2013), Zezé Motta e  o próprio Teatro Experimental do Negro (TEN) liderado por Abdias do Nascimento (1914-2011), entre muitos outros e outras que entenderam que as suas imagens nos palcos e nas telas eram capazes de contribuir significativamente para a dignidade da população negra no Brasil. Um dos diversos efeitos disso, sabemos, são as inúmeras gerações de artistas negres que são sua continuidade e persistem em disputar o território das artes, marcando-o com suas presenças, políticas, poéticas e pedagogias. 

Em um país racista, machista e misógino como o Brasil, para nós, tem sido um processo de grande aprendizagem revisitar os passos de Ruth de Souza e reconhecer neles as estratégias que ela construiu para, em seu próprio tempo e muito além dele, existir, continuar e permanecer. Olhando para a mulher e a atriz, encontramos-nos com a menina que fez do ato de sonhar uma política de invenção e criação de outros mundos possíveis. É  justamente essa dimensão política da criança que sonha que nós evocamos nesta edição com o ato de celebração do Centenário de Ruth de Souza.  

Indo mais longe, compreendemos o sonho como ciência originária e ancestral, produtora de afetos e mobilizadora de afetações entre seres e mundos. Esta ciência é fundamento das cosmologias, cosmovisões, histórias, políticas e poéticas dos corpos indígenas e negros, que, entre séculos de lutas, encontram também no sonho os caminhos para encantar,  existir, continuar e permanecer.

Imaginando ser possível construir espaços de encontro entre o centenário de Ruth de Souza e as lutas e as sabenças negras e indígenas, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 3ª edição instaura uma encruzilhada afetiva, política, artística e geográfica, na qual público, artistas, educadoras/es, críticas/os e pesquisadoras/es indígenas/es e negras/es/os, de todas as macrorregiões do país, se encontram em uma programação nacional, gratuita, online e presencial. 

Formada por Atos Artísticos, Quilombos Artístico-Pedagógicos, Giras de Conversa e Encontro de Sabenças, a programação inaugura a dimensão nacional do Festival, seguindo um exercício ético de superar a lógica que insiste em localizar a cidade de São Paulo como o único e/ou o principal ponto de referência de onde se propõem, observam, leem, sistematizam, compreendem e legitimam propostas artísticas, técnicas de criação, perspectivas conceituais e metodologias pedagógicas. Reconhecendo a imensidão dos Brasis, desde esta ruptura territorial até os universos aqui evocados, a presente edição do Dona Ruth: FTNSP, além de mobilizar o enfrentamento dos marcadores coloniais e hegemônicos – que historicamente controlam e aprisionam os campos das artes, da cultura e da educação -, sugere o tensionamento da dita história oficial das artes cênicas perpetuada por instituições de ensino para conferir às artes indígenas e negras o lugar de principais fontes de referência de formação da cultura brasileira. 

Para isso, artistas, grupos, coletivos, educadores e pesquisadoras/es que atuam a partir da experiência do corpo em festa e em guerra ocupam os palcos do Dona Ruth:FTNSP coexistindo na multiplicidade de experiências, modos de pensar, criar e produzir. Em suas elaborações poéticas, críticas e pedagógicas, expressam uma heterogeneidade de estéticas que apontam uma ética própria e tensionam as estruturas de poder dominantes, estabelecendo territórios de disputa histórica, social e econômica que realocam no tempo os saberes historicamente subalternizados e sempre alvos de extermínio – ainda mais intensificados diante das já incontáveis perversidades do atual desgoverno federal e pelos seus cúmplices capitalistas.  

Movida por encontros, diálogos, encantos, tensionamentos, inconformismos, rebeldias e transgressões, no cruzo entre o centenário de Ruth de Souza e as cosmologias e cosmovisões indígenas e negras, o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo – 3ª edição/2021 evoca forças motrizes para provocações políticas, éticas, poéticas e pedagógicas dialógicas com as urgências do nosso tempo. Tudo isso porque sonhamos que esses universos podem sugerir e apontar caminhos para a reinvenção da vida e do mundo, propondo outras rotas, outras técnicas, outras linguagens e outros marcos civilizatórios. Semeando, no corpo, nas memórias e nas subjetividades das pessoas negras e indígenas, farturas e abundâncias de desejos e possibilidades de vida e futuro para toda a população brasileira. 

Ellen de Paula e Gabriel Cândido
Direção e Curadoria

Confira a 3ª Edição

Conheça todas as atrações da terceira Edição do Festival em nossa programação completa.

Ver Programação
Memória

Confira as edições anteriores

Conheça as atrações das edições anteriores do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo.

Ver memória