Já estava escurecendo, mas antes de irmos embora de vez, dona Ruth disse para ficarmos mais um pouco e experimentarmos o pudim. Horas antes, dissemos que um dos motivos de nossa presença ali, naquela tarde de maio de 2019 em sua casa no Rio de Janeiro, era para compartilhar que há algum tempo estávamos elaborando, em São Paulo, um festival de teatro negro.  Nosso desejo era que esse festival tivesse o seu nome, como forma de homenagem permanente a ela e a sua emblemática trajetória artística no teatro, cinema e telenovelas. Por isso, estávamos pedindo também a sua permissão e licença para nomear o que estávamos intitulando de Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo.  

Silêncio. Dona Ruth olhava para nós de uma maneira que nos atravessava, sem pressa, como se pudesse conduzir o tempo sendo senhora dele, de nós, de tudo. Emocionada e feliz, dona Ruth respondeu que permitia, sim, a homenagem e que não sabia mais o que dizer. Nem nós. Depois, mostramos a ela a identidade visual do Festival criada pela artista Silvana Martins. Dona Ruth olhou atenta e, sorrindo, disse que havia gostado. Como não fazia mais viagens, comentou que iria acompanhar tudo por meio de seu tablet. Trocamos presentes, segredos, abraços e, após o pudim, deixamos uma data prevista para nos reencontrarmos.

Nosso desejo maior era que dona Ruth pudesse receber essa homenagem em vida, participar das atrações do evento e presenciar mais uma vez o reconhecimento público e coletivo de sua grandeza. Isso seria o contrário do que o sistema capitalista e racista faz conosco quando insiste na negação de quem somos e de tudo que construímos em vida para celebrar os nossos feitos apenas após a nossa morte. Mas sabemos que a presença de dona Ruth pulsa desde a concepção do Festival, sobre o qual ao menos pudemos contar-lhe como a fabulação de um possível que agora se realiza. 

Com o tempo, fomos preenchendo de mais sentido o nome do Festival por entender e desejar cada vez mais que esse “Dona” fosse capaz de se estender a todas mulheres negras que vieram antes de nós, pois são assim como a própria Ruth de Souza, responsáveis por inúmeras feituras e farturas para toda a sociedade brasileira. Entendemos também que esse “Dona Ruth” seria capaz de proporcionar encontros e acolhimentos (até porque ninguém mais do que as nossas mais velhas sabe proporcionar), para assim ir na contramão da lógica de tantas disputas, fragmentações das relações e desencontros produzidos pela cidade de São Paulo.      

Foi assim, com muita alegria e emoção, que demos início ao Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo em 2019. Desde sempre, pedimos licença para quem veio antes de nós e para quem está chegando agora. Não inventamos e tampouco temos a pretensão de inventar algo, somos apenas uma das muitas continuidades de uma história maior. Por isso queremos que nós, as nossas e os nossos permaneçam! Agradecemos a todas as pessoas que estão, cada qual a seu modo, tecendo conosco esse movimento ético, estético e político pela vida de toda a população por meio dos Teatros Negros do Brasil. Seguimos realizando o Festival com os melhores votos para uma longa e próspera continuidade da sua existência. 

Ellen de Paula e Gabriel Cândido

Idealização, Direção, e Coordenação de Produção

Foto de Luzia Gondim: Ruth de Souza, Ellen de Paula e Gabriel Cândido – 25 de maio de 2019, residência de Ruth de Souza no Rio de Janeiro/RJ.

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